sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Lord Byron

Poeta inglês de ascendência escocesa, George Gordon Byron nasceu em 1788, em Londres, filho de um capitão conhecido como Mad Jack Byron e de Catherine Gordon of Gight, uma herdeira escocesa cuja fortuna foi dissipada pelo marido. O pai de Byron morreu quando ele tinha três anos e os primeiros dez anos da sua vida foram passados com a mãe, em Aberdeen. Coxo de nascença, Byron teve uma infância difícil, agravada pelo temperamento violento da mãe e pela forma repressiva como tratava o filho. Em 1798 Byron tornou-se inesperadamente 6.° barão de Rochdale por morte de um parente afastado, título do qual sempre se orgulhou. Foi educado no liceu de Aberdeen e posteriormente em Harrow, onde se distinguiu menos nos estudos do que na natação e nos jogos de boxe e críquete. Ingressou no Trinity College, Cambridge, em 1805, e ali viveu de forma extravagante, contraindo algumas dívidas. Foi durante a sua permanência em Cambridge que viu editado o seu primeiro livro de poemas, Hours of Idleness (1807), que lhe mereceu favoráveis críticas, à exceção da que lhe foi consagrada pela Edinburgh Review no ano seguinte. Em resposta àquela crítica, Byron compôs a sátira English Bards and Scott Reviewers (1809) inspirada no estilo de Alexander Pope. No mesmo ano partiu para uma viagem de dois anos que o levou a Espanha, Portugal, Grécia, Malta, Albânia e ao Médio Oriente. No seu regresso, Byron publicou Hints from Horace (1811) e os Cantos I e II de Childe Harold's Pilgrimage (1812), a narrativa em verso dessas suas viagens, que constituiu um êxito imediato. Nesta obra aparece já delineado o tipo byroniano, romântico e sombrio, impressionável e dilacerado por sofrimentos secretos. Ao êxito da narrativa da Peregrinação de Childe Harold seguiu-se a publicação de outras narrativas em verso sobre temas exóticos: The Bride of Abydos (1813), The Giaour (1813), The Corsair (1814), Lara (1814), The Siege of Corinth (1816) e Mazeppa (1819). A imagem do herói byroniano foi determinante para a popularidade do autor, já então célebre na sociedade londrina. Em 1815 Byron casou com Anne Isabella Milbanke, que o deixou no ano seguinte, depois do nascimento da filha, Ada. Os rumores acerca de uma relação incestuosa entre Byron e a sua meia-irmã Augusta Leigh agravaram-se e o escritor, proscrito pela sociedade, partiu para o continente em 1816. Na Suíça encontrou-se com Percy Bysshe Shelley e Mary Wollstonecraft Godwin. Claire Clairmont, meia-irmã de Mary, deu à luz uma filha de Byron, que morreu na infância. Em Roma escreveu o último canto de Childe Harold (1816), identificando-se cada vez mais com o seu herói. Seguiram-se o poema The Prisoner of Chillon (1816) e os dramas líricos Manfred (1817) e Cain (1821). Em Veneza, onde permaneceu 2 anos, conheceu a condessa Teresa Guiccioli, esposa de um nobre italiano. Algumas das melhores obras de Byron datam deste período: Beppo (1818), A Vision of Judgment (1822) e Don Juan (1818-19), escritas em oitava rima. Em Don Juan, a sua principal obra que ficou inacabada, o realismo, o humor e a sátira alternam com o lirismo das descrições da natureza; a grandeza do poema reside sobretudo na sua métrica informal, que permitiu ao autor exprimir a sua complexa personalidade. O espírito combativo de Byron levou-o a juntar-se aos rebeldes italianos e a fundar com Leigh Hunt o jornal The Liberal. Em 1823 voltou à Grécia para participar na guerra da independência grega contra os Turcos e morreu, vítima de malária, em Missolonghi no dia 19 de abril de 1824. O escritor foi sepultado em Hucknall Torkard, Nottingham. O seu carácter arrebatado contribuiu para fazer dele uma das figuras mais típicas do Romantismo. Na Europa, a sua reputação esteve sempre associada ao movimento romântico, ainda que Byron privilegiasse o estilo de Pope. Da estadia do poeta em Sintra resta a referência de Byron em termos depreciativos a Portugal e aos portugueses (estrofes 14 a 33 de Childe Harold's Pilgrimage).



Contos:

O Enterro
Don Juan
The Giaour


Alguns poemas de sua autoria


O Crepúsculo da Tarde

Anão e servos, menestrel e bardos,
o árabe narrador e as bailarinas
desertaram das salas do banquete.
Haydéa e seu amante, a sós, estavam,
vendo o sol que em desmaio no ocidente
bordava o céu de franjas cor-de-rosa.

Ave-Maria! estrela do viandante,
tu conduzes ao pouso o peregrino
que anda, longe dos seus, na terra estranha.
Salve, estrela do mar; em ti se fitam
olhos e coração do marinheiro
que no oceano te saúda agora.
Salve, rainha excelsa, Ave-Maria!
Ei-la que chega a hora do teu culto,
à tardinha, em céu meigo, à luz do ocaso!

Bendita seja est'hora tão querida,
e o tempo, e o clima, e os sítios suspirados,
onde eu gozava na manhã da vida
o enlevo, - o santo enlevo, - deste instante!
Soava ao longe, - bem me lembro ainda, -
na velha torre o sino do mosteiro;
subia ao céu em notas morredouras
o harmonioso cântico da tarde;
era tudo silêncio, - e só se ouvia
a natureza a suspirar seus hinos
de arroubo e fé, - de devoção e pasmo.

Hora do coração, do amor, das preces,
Salve, Maria. Enlevo a ti minha alma,
Como é formoso o oval de teu semblante!
Amo teu rosto feiticeiro e belo,
amo o doce recato de teus olhos,
que se cravam na terra, enquanto adejam
sobre tua puríssima cabeça
cândidas asas de celeste anúncio!
Será isto um painel da fantasia?
Um quadro, um canto, uma legenda, um sonho?
Não! somente me prostro ante a verdade.

Aprazem-se uns obscuros casuístas
em criminar-me de ímpio. - Eles que venham
ajoelhar-se e suplicar comigo...
Veremos qual de nós melhor conhece
o caminho do céu. - São meus altares
as montanhas, as vagas do oceano,
a terra, o ar, os astros, o universo,
tudo o que emana da sublime Essência,
de onde exalou-se, e aonde irá minh'alma.

Hora doce do trêmulo crepúsculo!
quantas vezes errante, junto à praia,
na solidão dos bosques de Ravena,
que se alastram por onde antigamente
flutuavam as ondas do Adriático,
Bosques frondosos, para mim sagrados
pelos graciosos contos do Boccácio,
pelos versos de Dryden; - quantas vezes
aí cismei aos arrebóis da tarde!

Tudo o que há de mais grato, a ti devemos,
ó Héspero: - ao romeiro fatigado
dás a hospedagem: - a cansado obreiro,
a refeição da tarde; - ao passarinho,
a asa da mãe; - ao boi, o aprisco:
toda a paz que se goza em torno aos lares,
o quente, o meigo aninho dos penates,
descem contigo à hora do repouso,
tu coas n'alma o doce da saudade;
moves o coração, que a vez primeira
sai da terra natal, deixa os amigos,
e anda à mercê das ondas do oceano:
enterneces, enfim, o peregrino
ao som da torre, cuja voz sentida
como que chora o dia moribundo.

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência-curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.
Sol dos Insones
Sol dos insones! Ó astro de melancolia!
Arde teu raio em pranto, longe a tremular,
E expões a treva que não podes dissipar:
Que semelhante és à lembrança da alegria!
Assim raia o passado, a luz de tanto dia,
Que brilha sem com raios fracos aquecer;
Noturna, uma tristeza vela para ver,
Distinta mas distante-clara-mas que fria!

Trevas

Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vaguejavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; cidades consumiam-se
E os homens se juntavam juntos às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes quanto residiam bem à vista
dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
queimavam-se as floresta - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos,; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chegavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam os seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e os famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Porém, de uma cidade enorme resistiram,
Dois inimigos, que vieram encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles as revolveram
E trêmulos rasparam, com as mão esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
Para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de um arremedo; então alcançaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver, gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara a fome "diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era um informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
Mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a Escuridão não precisava
De seu auxílio - as Trevas eram o Universo.

Estâncias para Música

Alegria não há que o mundo dê, como a que tira.
Quando, do pensamento de antes, a paixão expira
Na triste decadência do sentir;
Não é na jovem face apenas o rubor
Que esmaia rápido, porém do pensamento a flor
Vai-se antes de que a própria juventude possa ir.
Alguns cuja alma bóia no naufrágio da ventura
Aos escolhos da culpa ou mar do excesso são levados;
O ímã da rota foi-se, ou só e em vão aponta a obscura
Praia que nunca atingirão os panos lacerados.
Então, frio mortal da alma, como a noite desce;
Não sente ela a dor de outrem, nem a sua ousa sonhar;
toda a fonte do pranto, o frio a veio enregelar;
Brilham ainda os olhos: é o gelo que aparece.
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperança de repouso:
É como na hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza anoso.
Pudesse eu me sentir ou ser como em horas passadas,
Ou como outrora sobre cenas idas chorar tanto;
Parecem doces no deserto as fontes, se salgadas:
No ermo da vida assim seria para mim o pranto.

O Oceano

Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!
Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;
de ruínas o homem marca a terra, mas se evola
na praia o seu domínio. Na úmida extensão
só tu causas naufrágios; não, da destruição
feita pelo homem sombra alguma se mantém,
exceto se, gota de chuva, ele também
se afunda a borbulhar com seu gemido,
sem féretro, sem túmulo, desconhecido.
Do passo do há traços em teus caminhos,
nem são presa teus campos. Ergues-te e o sacodes
de ti; desprezas os poderes tão mesquinhos
que usa para assolar a terra, já que podes
de teu seio atirá-lo aos céus; assim o lanças
tremendo uivando em teus borrifos escarninhos
rumo a seus deuses - nos quais firma as esperanças
de achar um portou angra próxima, talvez -
e o devolves á terra: - jaza aí, de vez.
Os armamentos que fulminam as muralhas
das cidades de pedra - e tremem as nações
ante eles, como os reis em suas capitais - ,
os leviatãs de roble, cujas proporções
levam o seu criador de barro a se apontar
como Senhor do Oceano e árbitro das batalhas,
fundem-se todos nessas ondas tão fatais
para a orgulhosa Armada ou para Trafalgar.
Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:
Grécia, Roma, Catargo, Assíria, onde é que estão?
Quando outrora eram livres tu as devastavas,
e tiranos copiaram-te, a partir de então;
manda o estrangeiro em praias rudes ou escravas;
reinos secaram-se em desertos, nesse espaço,
mas tu não mudas, salvo no florear da vaga;
em tua fronte azul o tempo não põe traço;
como és agora, viu-te a aurora da criação.
Tu, espelho glorioso, onde no temporal
reflete sua imagem Deus onipotente;
calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,
quer a gelar o polo, quer em cima ardente
a ondear sombrio, - tu és sublime e sem final,
cópia da eternidade, trono do Invisível;
os monstros dos abismos nascem do teu lodo;
insondável, sozinho avanças, és terrível.
Amei-te, Oceano! Em meus folguedos juvenis
ir levado em teu peito, como tua espuma,
era um prazer; desde meus tempos infantis
divertir-me com as ondas dava-me alegria;
quando, porém, ao refrescar-se o mar, alguma
de tuas vagas de causar pavor se erguia,
sendo eu teu filho esse pavor me seduzia
e era agradável: nessas ondas eu confiava
e, como agora, a tua juba eu alisava.

ADEUS

Adeus! e para sempre embora,
Que seja para nunca mais:
Sei teu rancor - mas contra ti
Não me rebelarei jamais.
Visses nu meu peito, onde a fronte
Tu descansavas mansamente
E te tomava um calmo sono
Que perderás completamente:
Que cada fundo pensamento
No coração pudesses ver!
Que estava mal deixá-lo assim
Por fim virias a saber.
Louve-te o mundo por teu ato,
Sorria ele ante a ação feia:
Esse louvor deve ofender-te,
Pois funda-se na dor alheia.
Desfigurassem-me defeitos:
Mão não havia menos dura
Que a de quem antes me abraçava
Que me ferisse assim sem cura?
Não te iludas contudo: o amor
Pode afundar-se devagar;
Porém não pode corações
Um golpe súbito apartar.
O teu retém a sua vida,
E o meu, também, bata sangrando;
E a eterna idéia que me aflige
É que nos vermos não tem quando.
Digo palavras de tristeza
Maior que os mortos lastimar;
Hão de as manhãs, pois viveremos,
De um leito viúvo despertar.
E ao achares consolo, quando
A nossa filha balbuciar,
Ensiná-la-ás a dizer "Pai",
Se o meu desvelo vai faltar?
Quando as mãozinhas te apertarem
E ela teu lábio -houver beijado,
Pensa em mim, que te bendirei
Teu amor ter-me-ia abençoado.
Se parecerem os seus traços
Com os de quem podes não mais ver,
Teu coração pulsará suave,
E fiel a mim há de tremer.
Talvez conheças minhas faltas,
Minha loucura ninguém sabe;
Minha esperança, aonde tu vás,
Murcha, mas vai, que ela em ti cabe.
Abalou-se o que sinto; o orgulho,
Que o mundo não pôde curvar,
Curvou-se a ti: se a abandonaste,
Minha alma vejo-a a me deixar.
Tudo acabou - é vão falar -,
Mais vão ainda o que eu disser;
Mas forçam rumo os pensamentos
Que não podemos empecer.
Adeus! assim de ti afastado,
Cada laço estreito a perder,
O coração só e murcho e seco,
Mais que isto mal posso morrer.
Oh! na Flor da Beleza Arrebatada
Oh! na flor da beleza arrebatada,
Não há de te oprimir tumba pesada;
Em tua relva as rosas criarão
Pétalas, as primeiras que virão,
E oscilará o cipreste em branda escuridão.
E junto da água a fluir azul da fonte
Inclinará a Tristeza a langue fronte
E as cismas nutrirá de sonho ardente;
Pausará lenta, e andará suavemente,
Como se com seus passos, pobre ente!
Os mortos perturbasse, mesmo levemente!
Basta! sabemos nós que o pranto é vão,
Que a morte, à nossa dor, não dá atenção.
Isso fará esquecer-nos de prantear?
Ou que choremos menos fará então?
E tu, que dizes para eu me olvidar,
Teu rosto acha-se pálido, úmido esse olhar.
Ambrose Bierce

Ambrose Bierce nasceu em Ohio, a 24 Junho de 1842. Depois da Guerra Civil Americana, em que participou do lado dos Unionistas, Bierce partiu para a Califórnia, onde se tornou jornalista. Em Inglaterra a partir de 1872, trabalhou para revistas humorísticas como a Figaro e a Fun. Regressou aos Estados Unidos em 1875, iniciando um longo período de colaboração com vários jornais.
Tornar-se-ia um dos jornalistas e escritores mais conhecidos do seu tempo, não deixando ninguém indiferente ao seu sentido acutilantemente crítico e satírico da humanidade. Com humor insolente, atacou todos os quadrantes da sociedade: as religiões, a política, a economia, o sentimentalismo... Em 1913, aos setenta e um anos, Bierce partiu ao encontro da Revolução Mexicana, sem deixar rasto. A sua morte permanece um mistério, mas acredita-se que possa ter acontecido durante a Batalha de Ojinaga, em Janeiro de 1914.

Obras

• O Dicionário do Diabo
• Cruzando o Umbral
• Visões da Noite
• Luar sobre a Estrada
• Um Incidente na Ponte de Owl Creek
• No Limiar do Irreal

Sinopse do Dicionário do Diabo

O «Dicionário do Diabo» é um clássico da literatura americana. O seu autor, Ambrose Bierce, amigo e rival de Mark Twain, tornou-se um dos mais famosos escritores e jornalistas depois da Guerra Civil.
Esta obra foi primeiro publicada num jornal, entre 1881 e 1906. No seu estilo deliciosamente sarcástico, com um humor satírico inteligente, o autor assume o papel do Diabo para subverter o sentido que habitualmente atribuímos às palavras. Bierce inventou um dicionário politicamente incorrecto, capaz de provocar tudo e todos. O seu humor é hoje tão acutilante como há cem anos atrás.
No «Prefácio» de Pedro Mexia pode ler-se: «Bierce é levado do diabo, e tem todo o interesse em associar a maldição ao seu texto. (...) Este Dicionário anuncia logo no seu nome que não se pretende informativo. (...) O que interessa a Bierce não é descrever o mundo tal como é. (...) O mundo não deve ser analisado com frieza científica ou ideológica, deve ser confrontado com os seus vícios, numa linguagem viciosa.»



Citações

"Citação: ato de repetir de maneira errada as palavras alheias."

"Paciência: uma forma menor de desespero, mascarada de virtude."

"Raciocinar: pesarmos as probabilidades na balança do desejo."

"Um santo é um pecador morto, revisto e corrigido."

"O que vale a pena fazer vale a pena o trabalho de pedir a alguém para o fazer."

"A política é a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares

"Nada é mais lógico do que a perseguição. A tolerância religiosa é uma espécie de falta de fé."

"Vaidade: homenagem de um palerma ao primeiro imbecil que aparece."

"Pederneira. Substância muito usada no fabrico de corações humanos."

"Orar. Pedir que as leis do universo sejam anuladas em favor de um único postulante, que se confessa indigno."

"Admiração. O nosso reconhecimento cortês de que outra pessoa se assemelha a nós

"Anistia é a generosidade do governo para com os condenados cujo castigo se tornaria demasiado caro."

"Definição de cérebro: um aparelho com o qual pensamos que pensamos."

"Cristão. Alguém que acredita que o Novo Testamento seja um livro inspirado por Deus, admiravelmente adaptado às necessidades espirituais do seu próximo."

"Dinheiro: uma benção que não nos traz vantagem exceto quando nos separamos dele."

"O conhecimento é a pequena porção da ignorância que arrumamos e classificamos."

"Dever: aquilo que nos impele inexoravelmente, através do nosso desejo, na direção do lucro."

"Economia: aquisição do barril de uísque de que não precisamos pelo preço da carne de vaca que não nos podemos dar ao luxo de comprar."

"Futuro. Esse período de tempo no qual os nossos negócios prosperam, os nossos amigos são verdadeiros e a nossa felicidade está garantida."

"Covarde é o homem que numa emergência perigosa pensa com as pernas."

"As calamidades são de duas espécies: a desgraça que nos acontece e a sorte que acontece aos outros."

"Amor: Uma insanidade passageira, curável pelo casamento."

"Casamento: cerimônia na qual duas pessoas passam a ser uma, uma passa a ser nada e nada passa a ser sustentável."

"O egoísta é alguém desprovido de consideração pelo egoísmo dos outros."

"Casamento: Uma comunidade que consiste em um homem, uma mulher e um(a) amante, num total de duas pessoas."

"O egotista é um sujeito com mau gosto, mais interessado em si próprio do que em mim."

"O saber é um gênero da ignorância humana que distingue o homem estudioso."

"A morte não é o fim. Resta sempre a luta pelo espólio."

"A amizade é um navio suficientemente grande para levar duas pessoas com tempo bom, mas apenas uma com tempo mau."

"Antipatia: Sentimento inspirado pelo amigo do nosso amigo."

"Beleza é o poder pelo qual uma mulher encanta o amante e aterroriza o marido."

"Consolação é o fato de saber que alguém melhor que nós está mais infeliz do que nós."

"Crítico: Pessoa que se vangloria de ser de satisfação difícil, porque ninguém lhe tenta agradar.”

"Ditador é o chefe de uma nação que prefere a peste do despotismo à praga da anarquia."

"Eloqüência é a arte de persuadir oralmente os tolos de que o branco é a cor que parece ser. Inclui o dom de fazer qualquer cor parecer branca."

"Epitáfio é uma inscrição num túmulo que mostra que as virtudes adquiridas pela morte têm efeito retroativo."

"Erudição é a poeira sacudida de um livro para dentro de um crânio vazio."

"Pedir perdão é assentar o terreno para futuras ofensas."

"Inimigo: uma pessoa que é instigada pela sua natureza maléfica a negar os nossos méritos ou a exibir méritos superiores aos nossos."

"Hospitalidade: virtude que nos obriga a alimentarmos e alojarmos certas pessoas que não precisam de alimentos nem de alojamento."

"Ousadia. Uma das qualidades mais notáveis de um homem em segurança."

"Pintura é a arte de proteger superfícies planas contra o tempo e de expô-las ao crítico."

"Absurdo: afirmação ou convicção manifestamente contrária à nossa própria opinião."

"Advogado: indivíduo com jeito para contornar a lei."

"Agradar: colocar os alicerces para uma superestrutura de imposição." "Ajudar: criar um ingrato."

"Álcool: princípio essencial de todos os líquidos que fazem o homem ficar com um olho negro."

"Alegria: uma sensação agradável provocada pela contemplação da miséria dos outros."

"Amabilidade: A amabilidade é a mais aceitável das hipocrisias."

"Ambição: um desejo irresistível de ser vilipendiado por inimigos enquanto se está vivo e ridicularizado por amigos quando se está morto."

"Angústia: uma doença provocada pela exposição à prosperidade de um amigo."

"Arrependimento: um sentimento que raramente incomoda as pessoas antes de começarem a sofrer."

"Ausente: pessoa com rendimentos, que atempadamente se retirou da esfera da extorsão.

"Autoestima: uma apreciação errada."

"Benevolência: oferecer cinco euros para o conforto do nosso avozinho que está no asilo, publicitando-o depois no jornal."

"Boca: no homem, é a porta da alma; na mulher, é a saída do coração."

"Caluniar: dizer tudo o que achamos sobre um homem quando ele não nos consegue achar."

"Casa: um edifício oco, construído para ser habitado pelo homem, pela ratazana, pelo rato, pelo escaravelho, pela barata, pela mosca, pelo mosquito, pela pulga, pelo bacilo e pelo micróbio."

"Cérebro: dispositivo com o qual pensamos que pensamos. Aquilo que distingue o homem que se contenta com ser alguma coisa do homem que quer fazer alguma coisa."

"Cínico: um malandro cuja visão deficiente lhe apresenta as coisas como elas são, não como deviam ser."

"Ciumento: indevidamente preocupado com a preservação daquilo que só pode ser perdido se não valer a pena ser mantido."

"Conselho: a mais pequena moeda de troca."

"Conservador: um estadista que gosta das coisas más que já existem; por oposição ao Liberal, que as quer substituir por outras."

"Conversa: feira na qual se expõem os dotes mentais mais despiciendos, estando cada expositor tão ocupado com a arrumação dos seus bens que nem consegue dar atenção aos do colega do lado."

"Coragem: admitir que se é um covarde."

"Cortesia: pedir desculpa a um indivíduo por estar no meio do caminho e ter sido alvejado por uma bala que ele disparou para acertar noutra pessoa. A forma mais aceitável de hipocrisia.”

"Culpado: o outro indivíduo."

"Curiosidade: uma qualidade repreensível do espírito feminino. O desejo de saber se uma mulher sofre da maldição da curiosidade constitui uma das paixões mais insaciáveis da alma masculina.”

"Decidir: sucumbir à preponderância de um determinado conjunto de influências sobre um outro conjunto de influências."

"Desgraça: o tipo de graça que nunca vem só."

"Desprezo: o que um homem prudente sente por um inimigo demasiado temível para que se lhe faça frente."

"Destino: aquilo que autoriza os crimes do tirano e serve de desculpa para os fracassos do idiota."

"Dia: um período de vinte e quatro horas, geralmente mal gastas."

"Diabo: o autor de todos os nossos infortúnios e proprietário de todas as coisas boas deste mundo."

"Diplomacia: a arte patriótica de mentir pelo nosso país."

"Difamar: mentir acerca de outra pessoa. Dizer a verdade acerca de outra pessoa."

"Direito: autoridade legítima para ser, fazer, ou ter; como o direito a ser rei, o direito a fazer mal ao próximo, o direito a ter sarampo, entre outros."

"Discussão: um método para demonstrar os erros dos outros."

"Divórcio: um toque de corneta que separa os combatentes, fazendo-os lutar à distância."

"Elogio: um empréstimo que rende juros."

"Enganar: dizer ao povo soberano que não vamos roubar se formos eleitos."

"Entusiasmo: uma doença de juventude que se cura com pequenas doses de arrependimento e umas aplicações exteriores de experiência."

"Esperança: desejo e expectativa combinados num só.”

"Esquecimento: um dom concedido por Deus aos devedores, para compensar o fato de serem destituídos de consciência."

"Evidente: evidente para o próprio e para mais ninguém."

"Expectativa: estado ou condição mental que, no cortejo das emoções humanas, é precedido pela esperança e seguido pelo desespero.”

"Falar: cometer uma indiscrição sem tentação, motivado por um impulso sem finalidade."

"Fé: crença, não baseada em provas, no que é contado por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo."

"Fidelidade: virtude peculiar daqueles que vão ser atraiçoados."

"Filosofia: um caminho com muitas estradas que vai de lugar nenhum a nada."

"Fugir: trocar os perigos e inconveniências de uma residência fixa pela segurança e o conforto da viagem."

"Funeral: um cortejo através do qual demonstramos o nosso respeito para com os mortos, enriquecendo o cangalheiro, e reforçamos a nossa dor com uma despesa que torna mais pungentes as nossas lamúrias e mais abundantes as nossas lágrimas."

"Gentileza: um breve prefácio a dez volumes de exigências."

"Gratidão: um sentimento que se situa a meio caminho entre um benefício recebido e um benefício esperado."

"Hábito: as algemas do homem livre."

"Hipócrita: indivíduo que, ao professar virtudes que não respeita, assegura as vantagens de parecer ser aquilo que despreza."

"História: um relato geralmente falso de acontecimentos geralmente fúteis, contados por governantes geralmente velhacos e soldados geralmente tolos."

"Historiador: bisbilhoteiro em larga escala."

"Homem: um animal tão perdido na contemplação voluptuosa daquilo que pensa que é que se esquece de refletir sobre aquilo que deveria ser. A sua atividade principal é o extermínio dos outros animais e da sua própria espécie, que, no entanto, se multiplica com tal rapidez que já infesta todo o mundo habitável."

"Ignorante: uma pessoa que desconhece certas coisas que nos são familiares, conhecendo outras coisas das quais nunca ouvimos falar."

"Imaginação: um armazém de fatos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso."

"Ingratidão: uma forma de amor-próprio que não é inconsistente com a prática de aceitar favores."

"Ingrato: indivíduo que recebe um benefício de outro, ou é, de qualquer outra forma, objeto de carinho."

"Injustiça: de todos os fardos que depositamos nos outros e que carregamos nós próprios, é o mais leve nas mãos e o mais pesado nas costas."

"Insensível: dotado de grande força moral para enfrentar os problemas que acontecem aos outros."

"Instrução: o tipo de ignorância que distingue o estudioso."

"Insurreição: uma revolução que não teve sucesso. Tentativa fracassada de opositores que pretendem substituir um governo mau por outro que não sabe governar."

"Intimidade: uma relação entre dois tolos, providencialmente atraídos para a sua mútua destruição."

"Intolerante: indivíduo que está obstinada e zelosamente vinculado a uma opinião que não partilhamos."

"Inveja: emulação adaptada às capacidades mais mesquinhas."

"Juiz: uma pessoa que está constantemente a interferir em discussões pelas quais não tem qualquer interesse pessoal."

"Juramento: no Direito, um apelo solene à Divindade, que pesa mais na consciência por existir uma pena para o perjúrio."

"Júri: um conjunto de pessoas designadas pelo tribunal para ajudar os advogados a evitar que a lei degenere e se transforme em justiça."

"Ladrão: nome vulgar para um indivíduo com sucesso em obter a propriedade dos outros."

"Lar: o sítio de último recurso - aberto toda a noite."

"Lazer: intervalos de lucidez numa vida desregrada."

"Legal: compatível com a vontade de um juiz que tem poder de jurisdição."

"Linguagem: a música com a qual encantamos as serpentes que guardam os tesouros dos outros."

"Litígio: uma máquina na qual se entra como um porco e se sai como uma salsicha."

"Litigante: uma pessoa que se prepara para trocar a pele pela esperança de ficar com os ossos."

"Lógica: a arte de pensar e raciocinar em estrita conformidade com as limitações e incapacidades da incompreensão humana."

"Marido: indivíduo que, depois de ter jantado, é incumbido de tratar dos pratos."

"Médico: um cavalheiro que prospera com doenças e morre com saúde."

"Medo: consciência da depravação total do futuro próximo."

"Mentiroso: viciado em retórica."

"Monumento: uma estrutura que tem como objetivo comemorar algo que não precisa ser comemorado ou que não pode ser comemorado."

"Mortalidade: a parte da imortalidade que já conhecemos."

"Ócio: uma quinta-modelo na qual o Diabo experimenta as sementes de novos pecados e cultiva os vícios de primeira necessidade."

"Ódio: um sentimento apropriado para as ocasiões em que se revela a superioridade de outra pessoa."

"Ofício: o que um tolo arranja para substituir a inteligência.”

"Ontem: a infância da juventude, a juventude da idade adulta, todo o passado da velhice."

"Opor: dar uma ajuda com obstruções e objeções."

"Oportunidade: uma ocasião favorável para agarrar uma desilusão."

"Oposição: na política, partido que impede o Governo de andar para aí aos pinotes, jarretando-o."

"Otimista: proponente da doutrina segundo a qual o preto é branco."

"Oratória: uma conspiração entre o discurso e a ação para enganar a inteligência. Uma tirania atenuada pela estenografia."

"Orgulho: recusarmo-nos a pagar a conta do alfaiate porque ele nos tratou por Senhor - e não por Doutor."

"Paixão: qualidade distintiva do amor inexperiente."

"Paraíso: um sítio onde os maus deixam de nos aborrecer com os seus assuntos pessoais, e os bons ouvem atentamente quando contamos os nossos."

"Passatempo: um dispositivo para promover a depressão. Exercício suave para a debilidade intelectual."

"Pateta: uma pessoa pouco elegante e com uma tendência excessiva para tropeçar nos próprios pés."

"Patife: uma espécie daninha que se encontra em grande abundância nos sítios onde há boas colheitas de tolos, de cuja planta se alimenta."

"Patriota: indivíduo a quem os interesses de uma parte parecem superiores aos interesses do todo. O joguete dos estadistas e a ferramenta dos conquistadores.”

"Paz: na política internacional, consiste num período de vigarices entre dois períodos de conflito."

"Perseverança: uma virtude modesta com a qual a mediocridade atinge um sucesso inglório."

"Planear: pensar no melhor método para atingir um resultado acidental."

"Político: uma enguia no lamaçal basilar sobre o qual a superestrutura da sociedade organizada é erigida. Quando se contorce, confunde a agitação da cauda com o estremecimento do edifício."

"Presente: a parte da eternidade que assinala a divisão entre o domínio da frustração e o reino da esperança."

"Pressa: a celeridade dos trapalhões."

"Presunção: amor-próprio, numa pessoa de quem não gostamos."

"Princípio: uma coisa que demasiadas pessoas confundem com «interesse»."

"Privilégio: ser autorizado a respirar, sem ter de subornar alguém primeiro."

"Proibido: dotado de um novo e irresistível encanto."

"Promessa: isto e bons conselhos são ótimos presentes, que todos podemos comprar para oferecer a um pobrezinho."

"Prudente: um homem que acredita em dez por cento daquilo que ouve, num terço daquilo que lê e em metade daquilo que vê."

"Quantidade: uma boa substituta da qualidade, quando se tem fome."

"Realização: a morte do esforço e o nascimento do tédio."

"Rebelde: o proponente de uma nova desordem que não conseguiu estabelecer."

"Recompensa: ingratidão."

"Reflexão: uma ação da mente, através da qual obtemos uma visão mais lúcida da nossa relação com as coisas passadas, ficando assim mais preparados para evitar os perigos que não voltaremos a encontrar."

"Relações: pessoas com quem nós contamos ou que contam conosco, consoante sejam ricas ou pobres."

"Religião: uma filha da Esperança e do Medo, que explica à Ignorância a natureza do Desconhecido."

"Religiosidade: reverência pelo Ser Supremo, baseada na Sua suposta semelhança com o Homem."

"Remorso: o depósito no fundo do copo da vida."

"Reputação: um grau de distinção entre a notoriedade e a fama - um pouco mais suportável que uma e um pouco mais intolerável que a outra. Às vezes, é concedida por uma mão pouco amiga e pouco sensata."

"Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho. Nos tempos da astrologia, era comum descarregá-lo para cima de uma estrela."

"Riso: uma convulsão interior, que produz uma distorção da expressão facial e que é acompanhada por sons desarticulados. É contagioso e, embora intermitente, incurável."

"Senilidade: imbecilidade provocada pela velhice, que se manifesta habitualmente sob a forma de loquacidade."

"Sentimento: um débil meio-irmão do Pensamento."

"Só: em má companhia."

"Sucesso: o único pecado imperdoável cometido contra os nossos semelhantes."

"Tempo: o clima do momento. Um tópico de conversa permanente entre pessoas a quem isso não interessa, mas que herdaram essa tendência de antepassados que andavam nus e para os quais o assunto era de extrema importância."

"Tolice: aquela «graça e faculdade divinas» cuja energia criadora e dominante inspira a mente do Homem, guiando as suas ações e alegrando a sua vida."

"Trabalho: um dos processos através dos quais A cria riqueza para B."

"Trair: retribuir a confiança depositada."

“Coragem: composto castrense de vaidade, dever e fé de jogador."

"Velhice: aquele período da vida no qual ajustamos os vícios que ainda temos, denegrindo aqueles que já não conseguimos satisfazer."

"Vencer: criar um inimigo.

"Verdade: um engenhoso composto de desejo e aparência. A descoberta da verdade é o único objetivo da filosofia, que é a mais antiga ocupação da mente humana, com excelentes perspectivas de continuar a aumentar a sua atividade até ao fim dos tempos."

"Verdadeiro: estúpido e iletrado."

"Virtudes: certas abstinências."

"Vizinho: indivíduo que, segundo os mandamentos, devemos amar como a nós próprios, embora ele faça tudo o que sabe para nos levar à desobediência."

"Fale quando estiver com raiva e fará o melhor discurso de que se arrependerá.”

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Os Contos da Cantuáia - Geoffrey Chaucer


A história se passa na Inglaterra do século XIV, durante uma peregrinação de um grupo de pessoas ao túmulo de São Tomás Beckett, na Cantuária. O grupo é formado por um Cavaleiro, seu filho, o Escudeiro, o Criado do Cavaleiro, uma Prioresa, uma Freira, um Monge, um Frade, um Mercador, um Clérigo, um Escrivão, um Proprietário de Terras, um Tecelão, um Tintureiro, um Carpinteiro, um Tapeceiro, um Mascate, um Cozinheiro, um Marinheiro, um Físico, um Pároco, um Moleiro, um Reitor, um Bailio, um Oficial de Justiça, uma Mulher de Bath e o próprio Chaucer. Estes viajantes, que pararam no Tabard Inn, decidem contar histórias para passar o tempo na viagem. Cada um dos peregrinos contará duas histórias no caminho até Cantuária e duas outras na viagem de volta. O Estalajadeiro os acompanhará e decidirá qual foi a melhor das histórias. Eles decidem tirar a sorte para ver quem terá a honra de contar a primeira história, e o escolhido é o Cavaleiro.
Conto do Cavaleiro - O Cavaleiro conta uma história sobre dois cavaleiros, Arcite e Palamon, que são capturados numa batalha e aprisionados em Atenas por ordem do Rei Teseu. Enquanto estavam aprisionados numa torre, ambos vêem Emília, a irmã da Rainha Hipólita, e imediatamente se apaixonam por ela. Os cavaleiros acabam deixando a prisão separadamente: um amigo de Arcite implora a Teseu pela sua libertação, enquanto Palamon consegue fugir mais tarde. Arcite retorna à corte ateniense disfarçado como servo, e, quando Palamon foge, os dois cavaleiros se encontram. Eles lutam por Emília, mas seu combate é interrompido pela chegada de Teseu. Teseu estabelece as regras para um duelo entre os dois cavaleiros pelo amor de Emília, e cada um passa um ano preparando um exército para uma batalha a ser travada na data definida pelo rei ateniense. Antes da batalha, Arcite reza a Marte pela vitória no combate, Emília reza a Diana para que ela seja feliz no casamento e Palamon reza a Vênus para ter Emília como sua esposa. Os três deuses ouvem suas preces e discutem sobre quem deverá prevalecer. Saturno intervém e decide mediar a questão. Arcite vence a batalha, mas, no momento em que ia ser coroado vencedor, acontece um terremoto que o mata. Antes de morrer, ele se reconcilia com Palamon e diz que ele merece se casar com Emília. Palamon e Emília se casam.
(Quando o Cavaleiro termina sua história, todos se mostram satisfeitos com suas nobres e honradas qualidades. No entanto, o Moleiro, embriagado, insiste em que ele deve contar a próxima história.)

Conto do Moleiro

O Moleiro conta uma história cômica sobre Nicholas, um estudante que vive com o carpinteiro John e sua esposa Alison, muito mais jovem do que ele, e pela qual Nicholas se apaixona. Outro homem, o romântico e cortês Absalão, também se apaixona por ela. Nicholas trama passar um dia com Alison dizendo a John que um dilúvio igual ao de Noé chegará em breve, e a única maneira deles sobreviverem é se escondendo dentro de caixas separadas colocadas no telhado, longe das vistas de todos. Enquanto John permanece na sua caixa, Nicholas e Alison saem para fazer sexo, mas são interrompidos por Absalão, que exige um beijo de Alison. Ela diz para ele fechar os olhos e depois dar o beijo. Ele obedece, e ela levanta sua saia, de forma que ele acaba beijando o traseiro dela. Humilhado, Absalão decide dar uma lição em Alison. Ele pega um ferro em brasa na forja do ferreiro e volta à casa de Alison. Desta vez, Nicholas tenta o mesmo truque e Absalão queima o traseiro dele. Nicholas grita por água, acordando John, que tinha adormecido no telhado. Ele cai lá de cima, se machuca e todos são humilhados.
(Os peregrinos riem gostosamente desta história, mas Oswald, o Bailio, se ofende, pensando que o Moleiro pretende menosprezar homens mais velhos. Em resposta, ele conta uma história sobre um moleiro desonesto.)

Conto do Bailio

Symkyn é um moleiro trapaceiro, que engana seguidamente seus clientes, que incluem o colégio de Cambridge. Dois estudantes de Cambridge, Aleyn e John, vão ao moleiro comprar farinha e trigo. Enquanto eles estão ocupados, Symkyn solta os cavalos deles e rouba seu trigo. Eles são forçados a passar a noite com Symkyn. Durante a noite, Aleyn seduz a filha do moleiro, Molly, enquanto John seduz a esposa dele. Quando Aleyn conta sua façanha a John, Symkyn o ouve por acaso e luta com ele. A esposa do moleiro acerta a cabeça de Symkyn com um pedaço de pau e o põe a nocaute, enquanto os dois estudantes escapam com o trigo que Symkyn tinha roubado.

(O Conto do Cozinheiro vem a seguir, mas existe apenas um fragmento incompleto, com menos de cinqüenta linhas. O próximo a contar a história é o Escrivão.)

Conto do Escrivão

Ele narra a história de Constância, a filha de um Imperador romano que se torna noiva do Sultão da Síria com a condição de que ele se converta ao Cristianismo. Enfurecida pela ordem de conversão forçada, a mãe do Sultão assassina seu filho e Constância escapa por pouco do mesmo destino. Ela é exilada num navio que atraca na Bretanha, onde é acolhida pelo guardião de um castelo próximo e sua esposa, a Dama Hermenegilda. Ambos se convertem ao Cristianismo pouco depois de conversarem com ela. Um jovem cavaleiro se enamora de Constância; ao ser rejeitado, ele assassina a Dama Hermenegilda e acusa Constância pelo crime. O Rei Alla exige que o cavaleiro confirme a acusação jurando sobre a Bíblia; ao fazê-lo, o cavaleiro fica imediatamente cego. Constância é inocentada e se casa com o Rei Alla. Eles têm um filho, Maurício, que nasce quando o rei está ausente, guerreando na Escócia. A Dama Donegilda trama o banimento de Constância, interceptando as cartas entre Alla e Constância e substituindo-as por cartas falsas. Desta maneira, Constância acaba sendo mandada embora novamente, e durante sua viagem seu barco é interceptado por um navio de guerra romano. Um senador acaba enviando-a para Roma, onde ninguém a reconhece como a filha do Imperador. Depois de algum tempo, o Rei Alla faz uma peregrinação a Roma, onde ele se reencontra com Constância. O Imperador romano descobre que Maurício é seu neto e o nomeia herdeiro do trono.

(A Mulher de Bath irá contar a próxima história. Inicialmente, ela faz uma longa dissertação sobre o casamento, na qual ela relembra cada um dos seus cinco maridos. Seus primeiros maridos eram homens idosos, os quais ela intimidava, através de remorsos e recusa de favores sexuais, obrigando-os a fazerem as suas vontades. No entanto os dois últimos maridos eram mais jovens e mais difíceis de dobrar. Jankin, o último marido, tinha apenas vinte anos, a metade da idade dela. Ele se mostrou muito difícil de controlar, pois ele se recusava a deixar a Mulher de Bath dominá-lo, e lia livros que diziam que as mulheres deveriam ser submissas. Quando ele arrancou uma página de um desses livros, Jankin a espancou, fazendo com que ela ficasse surda de um dos ouvidos. No entanto, ele sentiu tanto remorso com sua atitude que ele se tornou totalmente submisso a ela, e os dois permaneceram felizes. A seguir, ela conta sua história, que trata da dinâmica de um casamento.)

Conto da Mulher de Bath

Um certo cavaleiro é condenado à morte por ter violentado uma jovem. Entretanto, ele é poupado pela rainha, que o libertará se ele puder responder à pergunta "O que as mulheres querem?". O cavaleiro não consegue encontrar uma resposta satisfatória até que ele encontra uma velha muito feia, que promete contar a resposta a ele se ambos se casarem. Ele concorda, e é libertado quando diz à rainha que as mulheres querem comandar os seus maridos. No entanto, o cavaleiro está insatisfeito por ter que se casar com aquela megera idosa. Ela então propõe uma escolha: ele poderá ter uma esposa velha e feia porém submissa, ou uma jovem e bela porém dominadora. Ele escolhe tê-la como jovem e, embora ela tenha autoridade sobre ele, os dois são completamente felizes daí em diante.

(O Frade conta a história seguinte. Ele começa se desculpando com o Oficial de Justiça, pois sua história expõe a fraude da sua profissão.)

Conto do Frade

A história do Frade fala sobre um oficial de justiça malvado que, enquanto entregava intimações para o tribunal eclesiástico, encontra-se com um viajante misterioso, que acaba se revelando ser o próprio Diabo. Os dois trocam segredos sobre suas profissões, e o Diabo diz que eles acabarão se encontrando no Inferno se o oficial continuar a trabalhar tão bem. O oficial visita uma velha, entrega uma intimação a ela e então se oferece para receber um suborno como pagamento para impedir sua excomunhão. A velha acredita que não tem pecados e amaldiçoa o oficial. O Diabo então aparece e lança o oficial no Inferno.

(O Oficial de Justiça se enfurece com o conto do Frade. Antes de começar sua história, ele conta uma breve anedota. Um frade visitou o Inferno e ficou surpreso ao notar que não haviam outros frades. Então, o anjo que o acompanhava levantou a cauda de Satã e milhares de frades saíram correndo assustados de lá. O Oficial conta uma história sarcástica atacando os frades.)
Conto do Oficial de Justiça - O Oficial fala sobre um frade que se hospeda com um estalajadeiro e sua mulher, aborrecendo-os tremendamente ao se queixar que eles pouco contribuíam para a Igreja, além de não terem ido à missa recentemente. Indignado, o estalajadeiro se explica dizendo que não tinha ido à missa porque estava doente, além de sua filha pequena ter morrido há pouco tempo. O frade tenta primeiramente acalmá-lo, e depois volta a pedir doações. O estalajadeiro promete dar ao frade um presente, e acaba soltando gases com grande barulho.
(O Estalajadeiro ordena ao Clérigo, um estudante de Oxford que tinha ficado quieto todo esse tempo, que conte a próxima história.)

Conto do Clérigo

Walter era um marquês italiano que finalmente decide tomar esposa, depois que o povo da sua província reclama do seu longo período como solteiro. Walter se casa com Griselda, uma mulher plebéia mas extraordinariamente virtuosa e amada por todos. No entanto, Walter decide testar sua devoção. Quando sua primeira filha nasce, Walter diz a ela que seu povo está infeliz e deseja a morte do bebê. Ele leva embora a criança, presumivelmente para ser morta, mas ao invés disso a entrega à sua irmã para criá-la. Ele repete a trama com o bebê seguinte, um menino. Finalmente, Walter diz a Griselda que o Papa exige que eles se divorciem. Ele a manda embora da sua casa completamente nua, pois ela não tinha nenhum pertence quando ela chegara lá. Griselda aceita cada uma dessas tragédias com grande paciência. Logo Walter decide acabar com a provação e manda buscar seus dois filhos. Ele diz a Griselda que irá se casar novamente, e a apresenta à sua suposta noiva, a qual ele revela ser a filha deles. A família se reúne novamente. O Clérigo termina aconselhando as mulheres a se esforçarem para ser tão fiéis quanto Griselda, mesmo que tais fatalidades sejam improváveis.
(O Mercador elogia Griselda pela sua fidelidade, mas afirma que sua esposa é muito diferente da virtuosa mulher da história do Clérigo. Ele, portanto, conta uma história sobre uma mulher infiel.)

Conto do Mercador

O Mercador descreve January, um cavaleiro idoso e cego que decide desposar uma mulher muito mais jovem, apesar das objeções do seu irmão, Placebo. January se casa com a jovem e bela May, que logo se aborrece com a constante atenção sexual dele e decide ter um caso com Damian, o escudeiro de January. Quando January e May estão no jardim, May se afasta sorrateiramente para fazer sexo com Damian. Os deuses Plutão e Prosérpina observam a cena, se aborrecem com o comportamento da jovem e decidem intervir, restaurando a visão de January. Quando January vê o que está acontecendo, May diz a ele para não acreditar nos seus olhos, e ele acredita nela.

(O Escudeiro conta a próxima história, que está incompleta. A seguir, é a vez do Proprietário de Terras.)

Conto do Proprietário de Terras

Ele começa sua história descrevendo o casamento do cavaleiro Arviragus e da dama Dorigen. Quando Arviragus viaja numa expedição militar, Dorigen lamenta sua ausência e teme que, ao voltar, o navio dele se despedace nos inúmeros rochedos que existem na costa. Um jovem, Aurelius, se apaixona por ela, mas ela se recusa a retribuir seus favores. Ela concorda em se deitar com Aurelius apenas se ele encontrar uma maneira de tirar os rochedos do mar, uma tarefa que ela crê ser impossível. Aurelius procura um feiticeiro, que concorda em resolver o problema desde que Aurelius pague uma grande soma a ele. O feiticeiro cria a ilusão do desaparecimento dos rochedos, enquanto Arviragus retorna são e salvo para casa. Dorigen conta a seu marido a promessa que tinha feito, e Arviragus diz que ela precisa cumprir o prometido. Ele ordena que ela vá se deitar com Aurelius, mas percebe a dor que isso causaria em Dorigen e decide não obrigá-la a fazer isso. Por sua vez, o feiticeiro perdoa a dívida de Aurelius. A história termina perguntando qual desses homens se comportou de forma mais honrosa.

Conto do Físico

A história seguinte fala sobre Virginius, um respeitável cavaleiro romano, cuja filha, Virgínia, possuía beleza incomparável. Appius, o juiz que governava a cidade, desejava Virgínia ardentemente e colaborou com Claudius, que declarou no tribunal que Virgínia era sua escrava e que Virginius a tinha roubado dele. Appius ordena que Virgínia seja devolvida ao seu "dono". Virginius, sabendo que Appius e Claudius tinham agido desta forma para violentar sua filha, pede a ela que escolha entre a morte e a desonra. Ela escolhe morrer, e Virginius corta a cabeça da sua filha, levando-a até Appius e Claudius. O povo da cidade fica tão chocado com esta atitude que conclui que Appius e Claudius tinham sido venais e mentirosos nesta questão. Appius é preso e comete suicídio, enquanto Claudius é banido.

(Antes de começar a próxima história, o Vendedor de Indulgências faz uma longa introdução sobre a natureza da sua profissão. Ele conta os segredos do seu negócio, incluindo a venda de itens inúteis como relíquias de santos, e admite que seu trabalho não é afastar as pessoas do pecado, mas sim assustá-las o bastante para que elas paguem por indulgências.)

Conto do Vendedor de Indulgências

Ele fala sobre três rufiões que procuram a Morte para derrotá-la e viverem para sempre. Eles encontram um velho, que diz a eles que a Morte pode ser encontrada debaixo de uma árvore próxima. Os três vão até lá, mas ao invés da Morte encontram um vasto tesouro. Dois dos malandros enviam o terceiro até a aldeia para comprar comida e bebida para festejarem durante a noite; secretamente, eles planejam fugir com a parte dele. Enquanto ele estava fora, os dois pensam melhor e decidem simplesmente matá-lo. Por sua vez, o terceiro homem envenena a bebida para ficar com todo o tesouro para si. Quando ele retorna, os dois companheiros o esfaqueiam; depois, bebem o vinho envenenado e também morrem. Assim, todos os três encontram a Morte sob a forma da Avareza. O Vendedor de Indulgências termina sua história com uma diatribe contra o pecado e implora aos viajantes que comprem suas indulgências, mas o Estalajadeiro o enfrenta.

Conto do Marinheiro

O Marinheiro conta a história de um mercador sovina que exige que sua esposa pague cem francos que ela tinha pego emprestado dele. A esposa insatisfeita se queixa sobre isso com o irmão Dan John, um monge conhecido do casal. Ele se oferece para pagar a dívida se ela aceitar dormir com ele. A mulher concorda, e o irmão Dan John consegue os cem francos pegando-os emprestados com o próprio mercador. No entanto, ele percebe que a mulher o estava pagando com o mesmo dinheiro que ele tinha emprestado ao monge. Portanto, a esposa diz que pode saldar a dívida com ele na cama.

Conto da Prioresa

Ela conta a história de um menino cristão que vivia numa cidade da Ásia que era dominada por uma população judia perversa. Quando o menino aprendeu a canção Alma Redemptoris, que louvava a Virgem Maria, ele voltou da escola para casa cantando-a. Os judeus, enfurecidos pelo seu comportamento, capturam a criança e cortam sua garganta, abandonando-a numa cisterna para morrer. A mãe do menino procura por ele freneticamente. Quando ela o encontra, ele ainda não tinha morrido, pois a Virgem Maria tinha colocado uma semente na sua língua para permitir que o menino falasse enquanto ela estivesse lá. Ao retirarem a semente, o menino morre e vai para o Paraíso. A história termina com um lamento pelo menino e uma maldição aos judeus que cometeram este crime atroz.

(O conto seguinte será narrado pelo próprio Chaucer. Ele começa uma história interminável sobre Sir Thopas, fazendo um poema tão rebuscado e maçante que consegue aborrecer todos os peregrinos. O Estalajadeiro o interrompe bruscamente e exige que ele conte outra história.)

Conto de Chaucer

Ele fala sobre Melibeu, um poderoso governante cujos inimigos violentam sua esposa, Prudência, e quase matam sua filha, Sofia. Enquanto decidia sobre declarar guerra aos seus inimigos, Prudência o aconselha a se manter tolerante, e eles se envolvem numa longa discussão sobre o curso de ação apropriado. Por fim, Melibeu permite aos seus inimigos escolherem ser sentenciados por ele ou pela sua esposa. Eles se submetem ao julgamento de Melibeu. A princípio, ele pretende exilar os criminosos e confiscar seus bens. No entanto, ele acaba acatando o pedido de clemência feito pela sua esposa.

Conto do Monge

O Monge não conta uma história propriamente dita, mas ao invés disso faz uma longa lista de figuras históricas e literárias que experimentaram uma desgraça. Ele menciona, entre outros, Adão, Sansão, Hércules, o Rei Pedro da Espanha, Bernabò Visconti, Nero, Júlio César e Creso. Os peregrinos interrompem a história do Monge, achando que esta lista de tragédias históricas era monótona e deprimente.

Conto da Freira

A Freira narra a história do galo Chantecler e da galinha Pertelote. Chantecler julgava que era muito importante, pois, se não cantasse toda madrugada, o sol não nasceria. Certa noite, Chantecler estava doente e teve um sonho no qual ele era caçado por uma raposa. Ele temia que seu sonho fosse profético, mas Pertelote garante que este sonho era fruto da sua doença, e que ele devia procurar ervas para se curar. Chantecler insiste em que os sonhos têm um significado mais profundo, mas acaba concordando com sua esposa. Quando ele vai procurar ervas, ele é realmente perseguido por uma raposa. Ele é salvo pelos gritos de Pertelote, que atraíram a dona da fazenda onde as aves viviam, e que consegue expulsar a raposa de lá.

Conto da Segunda Freira

Ela conta a vida de Santa Cecília, que converte seu marido e seu irmão ao Cristianismo no tempo do Império Romano, quando a fé cristã era ilegal. Os dois são executados pelas suas crenças, e ela mesma é cortada por uma espada três vezes durante sua execução, mas não morre imediatamente. Durante sua longa agonia, que dura vários dias, ela ordena que seus bens sejam distribuídos pelos pobres. Após sua morte, ela é santificada pelo Papa Urbano.

(Depois que a Segunda Freira termina sua história, um Alquimista e seu Criado juntam-se ao grupo de viajantes. O Alquimista tinha ouvido que eles estavam contando histórias e também gostaria de participar. O Criado fala sem parar sobre o Alquimista, contando histórias fantásticas sobre ele. Isso aborrece tanto o seu mestre que ele vai embora subitamente. O Criado resolve então contar uma história pessoalmente.)

Conto do Criado do Alquimista

O Criado fala longamente sobre o trabalho de um alquimista e os meios pelos quais ele e seu mestre enganam os tolos, fazendo com que elas pensem que eles conseguem duplicar seu dinheiro. (O Estalajadeiro ordena que o Cozinheiro conte a próxima história, mas o homem está bêbado demais para falar algo coerente. Portanto, o Reitor fará a narrativa seguinte.)

Conto do Reitor

Ele fala sobre o deus Febo, que era um marido ciumento quando assumia forma mortal. Ele vigiava de perto sua esposa, temendo que ela fosse infiel. Febo tinha um corvo branco que podia falar a linguagem dos homens e tinha uma bela voz. Quando o corvo branco descobre que a esposa de Febo o traía, ele dá a má notícia ao seu dono. Enfurecido, Febo agride o corvo e o amaldiçoa. De acordo com o Reitor, isto explica porque os corvos são negros e somente podem cantar de forma desagradável.

Conto do Pároco

O Pároco não conta uma história propriamente dita. Na verdade, ele faz um longo sermão sobre a natureza do pecado e os três componentes do perdão: a contrição, a confissão e a satisfação. A narrativa do Pároco dá exemplos dos sete pecados capitais e os explica, e também detalha o que é necessário para a redenção.
(Chaucer termina os contos com uma retratação, pedindo àqueles que se ofenderam com as histórias para culpar a grosseria e falta de educação do autor, pois suas intenções não foram imorais, e também pedindo àqueles que acharam algo louvável nas histórias para darem o crédito a Cristo.)

Os Contos de Beedle, o Bardo


O livro Os Contos de Beedle, o Bardo, são histórias contadas para as crianças bruxas. No livro Harry Potter e as Relíquias da Morte, o livro é deixado por Dumbledore para Hermione, sendo que, somente um dos cinco contos é citado no livro, ‘O Conto dos Três Irmãos’.

A autora J.K. Rowling desenvolveu, escreveu à mão e desenhou somente sete cópias do pequeno livro, entre os quais, seis deu para pessoas que a ajudaram ao decorrer da saga Harry Potter, sendo que cada livro tem uma dedicatória diferente, e somente um foi leiloado para ajudar a Instituição Children’s Voice, que ajuda crianças desamparadas de toda Europa, na qual J.K. Rowling é co-fundadora. Em um leilão milionário a Amazon.com adquiriu o pequeno livro e divulgou os contos para os fãs. Todas as cópias têm sua capa revestida com couro marroquino e é enfeitado de pedras semipreciosas e prata. São os contos:

O Mago e o Caldeirão Saltitante
A Fonte da Grande Fortuna
O Coração Peludo do Mago
Babbity a coelha, e seu Tronco que Cacarejava
O Conto dos Três Irmãos

No começo a autora J.K. Rowling tinha em mente que o livro teria mais ou menos trinta contos no total, mais isso não foi possível depois que a autora se deu conta de que os publicaria e escreveria todos à mão. Em uma recente entrevista, a autora falou que: ‘esses livros são uma forma maravilhosa para dizer adeus à saga Harry Potter’.

O conto mais famoso e de grande destaque no livro, o Conto dos Três Irmãos, pode ser lido abaixo:

“Era uma vez três irmãos que viajavam numa estrada deserta e tortuosa ao anoitecer. Depois de algum tempo, os irmãos chegaram a um rio fundo demais para passar a pé e perigoso demais para atravessar a nado. Os irmãos eram, porém, exímios em magia, e então simplesmente agitaram as suas varinhas e fizeram aparecer uma ponte sobre as águas traiçoeiras. Iam a meio da ponte quando viram o caminho bloqueado por um vulto encapuzado. E a Morte falou-lhes. Estava zangada por ter sido roubada em três novas vítimas, porque o normal era os viajantes se afogarem no rio. Mas a Morte era astuta. Fingiu felicitar os três irmãos pela sua magia, e disse que cada um ganharia um prêmio por ter sido inteligente o bastante para lhe escapar. Então, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu uma varinha mais poderosa que todas as que existissem: uma varinha que vencesse sempre todos os duelos, uma varinha digna de um feiticeiro que derrotara a Morte! Então, a Morte atravessou a ponte, dirigiu-se a um velho sabugueiro na margem do rio, moldou uma varinha de um galho da árvore e entregou-a ao irmão mais velho. Depois, o segundo irmão, que era um homem arrogante, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de restituir a vida aos que ela levara. Então a Morte apanhou uma pedra da margem do rio e entregou-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra tinha o poder de ressuscitar os mortos. Depois, a Morte perguntou ao terceiro e mais jovem dos irmãos, o que queria. O irmão mais novo era o mais humilde e também o mais sensato dos irmãos, e não confiava na Morte. Pediu, então, algo que permitisse ele sair daquele lugar sem ser seguido pela Morte. E a Morte, de má vontade, entregou-lhe o seu próprio Manto da Invisibilidade. Depois a Morte afastou-se para um lado e deixou os três irmãos continuarem o seu caminho e foi o que eles fizeram, comentando, com espanto, a aventura que tinham vivido e admirando os presentes da Morte. No devido tempo, os irmãos se separaram, seguindo cada um o seu destino. O primeiro irmão viajou uma semana ou mais e, ao chegar a uma vila distante, procurou outro feiticeiro com quem tinha desavenças. Armado com a Varinha de Sabugueiro como arma, ele não poderia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Deixando o inimigo morto estendido no chão, o irmão mais velho dirigiu-se a uma estalagem, onde se gabou, em alto e bom som, a poderosa varinha que arrancara à própria Morte, e que o tornava invencível. Na mesma noite, outro feiticeiro aproximou-se silenciosamente do irmão mais velho enquanto dormia na sua cama, embriagado pelo vinho. O ladrão levou a varinha e, para a cautela, cortou o pescoço ao irmão mais velho. Assim a Morte levou o irmão mais velho. Entretanto, o segundo irmão viajou para a sua casa, onde vivia sozinho. Aí, tomou a pedra que tinha o poder de ressuscitar os mortos e girou-a três vezes na mão. Para seu espanto e satisfação, a figura da rapariga em que tivera esperança de desposar, antes da sua morte precoce, surgiu instantaneamente diante dele. Contudo, ela estava triste e fria, separada dele como que por um véu. Embora tivesse retornado ao mundo dos mortais, o seu lugar não era ali, e ela sofria. Por fim, o segundo irmão, enlouquecido pela saudade, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela. E assim a Morte levou o segundo irmão. Embora a Morte procurasse o terceiro irmão durante muitos anos, jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada é que o irmão mais novo tirou, finalmente, o Manto da Invisibilidade e o deu ao seu filho. “E então acolheu a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e como iguais, partiram desta vida.”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Luís Vaz de Camões 1524 — 1580 ( Lisboa ) Foi um célebre poeta de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura em língua portuguesa e um dos grandes poetas do Ocidente.
Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Aparentemente nasceu em Lisboa, de uma família da pequena nobreza. Sobre a sua infância tudo é conjetura mas, ainda jovem, terá recebido uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o latim e conhecendo a literatura e a história antigas e modernas. Pode ter estudado na Universidade de Coimbra, mas a sua passagem pela escola não é documentada. Frequentou a corte de Dom João III, iniciou a sua carreira como poeta lírico e envolveu-se, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar uma vida boêmia e turbulenta. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, se autoexilou na África, alistado como militar, onde perdeu um olho em batalha. Voltando a Portugal, feriu um servo do Paço e foi preso. Perdoado, partiu para o Oriente. Passando lá vários anos, enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu bravamente ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas. De volta à pátria, publicou Os Lusíadas e recebeu uma pequena pensão do rei Dom Sebastião pelos serviços prestados à Coroa, mas nos seus anos finais parece ter enfrentado dificuldades para se manter.
Logo após a sua morte a sua obra lírica foi reunida na coletânea Rimas, tendo deixado também três obras de teatro cômico. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia, ganhando prestígio sempre crescente entre o público e os conhecedores e influenciando gerações de poetas em vários países. Camões foi um renovador da língua portuguesa e fixou-lhe um duradouro cânone; tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional. Hoje a sua fama está solidamente estabelecida e é considerado um dos grandes vultos literários da tradição ocidental, sendo traduzido para várias línguas e tornando-se objeto de uma vasta quantidade de estudos críticos.


Abaixo alguns sonetos e poemas de Camões:




Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Verdes são os campos

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Transforma-se o amador na cousa amada

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Se tanta pena tenho merecida

Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes u~a alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vosso olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque, em tão dura e áspera contenda,
É bem que, pois não acho defensão,
Com me meter nas lanças me defenda.


Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.


Enquanto quis Fortuna que tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não disesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.


Tomou-me vossa vista soberana

Tomou-me vossa vista soberana
Aonde tinha as armas mais à mão,
Por mostrar que quem busca defensão
Contra esses belos olhos, que se engana.

Por ficar da vitória mais ufana,
Deixou-me armar primeiro da razão;
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não vale defensa humana.

Mas porém, se vos tinha prometido
O vosso alto destino esta vitória,
Ser-vos tudo bem pouco está sabido.

Que posto que estivesse apercebido,
Não levais de vencer-me grande glória;
Maior a levo eu de ser vencido.


Quem pode livre ser, gentil Senhora,


Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.


O fogo que na branda cera ardia,


O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se ascendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendeia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.


Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abraço e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.


Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.





Quando de minhas mágoas a comprida

Quando de minhas mágoas a comprida
Imaginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que para mim foi sonho nesta vida.

Lá nua saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro para ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: -- Não me fujais, sombra benina! --
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: -- Dina...
Antes que diga: -- mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.



Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste


Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já para sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?



Endechas a Bárbara escrava


Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E, pois nela vivo,
É força que viva.


Descalça vai para a fonte

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.


Perdigão perdeu a pena


Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



No mundo quis o Tempo que se achasse


No mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por exprimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.


Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho.


Quando me quer enganar


Quando me quer enganar
A minha bela perjura,
Para mais me confirmar
O que quer certificar,
Pelos seus olhos mo jura.
Como meu contentamento
Todo se rege por eles,
Imagina o pensamento
Que se faz agravo a eles
Não crer tão grão juramento.

Porém, como em casos tais
Ando já visto e corrente,
Sem outros certos sinais,
Quanto me ela jura mais,
Tanto mais cuido que mente.
Então, vendo-lhe ofender
Uns tais olhos como aqueles,
Deixo-me antes tudo crer,
Só pela não constranger
A jurar falso por eles.


Amor, que o gesto humano na alma escreve


Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.


Quem presumir, Senhora, de louvar-vos

Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.

Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.

Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.

Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.


Posto me tem Fortuna em tal estado

Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.

Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,

Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.

E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.


Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.


Eu cantarei de amor tão docemente

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.


Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mais deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.


Se as penas com que Amor tão mal me trata

Se as penas com que Amor tão mal me trata
Permitirem que eu tanto viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;

E se o tempo, que tudo desbarata
Secar as frescas rosas sem colhê-las,
Mostrando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em bela prata;

Vereis, Senhora, então também mudado
O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.

Suspirareis então pelo passado,
Em tempo quando executar-se possa
Em vosso arrepender minha vingança.


Se me vem tanta glória só de olhar-te

Se me vem tanta glória só de olhar-te,
É pena desigual deixar de ver-te;
Se presumo com obras merecer-te,
Grão paga de um engano é desejar-te.

Se aspiro por quem és a celebrar-te,
Sei certo por quem sou que hei-de ofender-te;
Se mal me quero a mim por bem querer-te,
Que prêmio querer posso mais que amar-te?

Porque um tão raro amor não me socorre?
Ó humano tesouro! Ó doce glória!
Ditoso quem à morte por ti corre!

Sempre escrita estarás nesta memória;
E esta alma viverá, pois por ti morre,
Porque ao fim da batalha é a vitória.


Quem vê, Senhora, claro e manifesto

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder de vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


O dia em que nasci moura e pereça,

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!


Julga-me a gente toda por perdido

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.


Senhora minha, se de pura inveja

Senhora minha, se de pura inveja
Amor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhos a luz que o Sol deseja,

Não me pode tolher que vos não veja
Nesta alma, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos terei sempre debuxada,
Por mais cruel inimigo que me seja.

Nela vos vejo, e vejo que não nasce
Em belo e fresco prado deleitoso
Senão flor que dá cheiro a toda a serra.

Os lírios tendes nu~a e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem os tiver, se há tanto bem na terra!


O cisne, quando sente ser chegada

O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música com voz alta e mui subida
Levanta pela praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando posto já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei pelos vossos desfavores
La vuestra falsa fé y el amor mio.


Se pena por amar-vos se merece


Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.


Sempre a Razão vencida foi de Amor

Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.


Coitado! que em um tempo choro e rio

Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.

Vôo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!


Lembranças, que lembrais meu bem passado

Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
Não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida há-de ser sempre em tormento.


Nunca em amor danou o atrevimento

Nunca em amor danou o atrevimento;
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.

Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São umas ilusões que leva o vento.

Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.

Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.


Erros meus, má fortuna, amor ardente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Qual tem a borboleta por costume

Qual tem a borboleta por costume,
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agora se consume,

Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Agonia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;

Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.


O tempo acaba o ano, o mês e a hora

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.


Quem diz que Amor é falso ou enganoso

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.


De quantas graças tinha, a Natureza

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


Ditoso seja aquele que somente

Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando absente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.

Mas triste de quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.


Glosa a mote alheio

"Vejo-a na alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo."

Se só no ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
"Vejo-a na alma pintada."

O desejo, que se estende
Ao que menos se concede,
Sobre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Que então não tenho que dar,
"Quando me pede o desejo."

Como àquele que cegou
É cousa vista e notória,
Que a Natureza ordenou
Que se lhe dobre em memória
O que em vista lhe faltou,
Assim a mim, que não rejo
Os olhos ao que desejo,
Na memória e na firmeza
Me concede a Natureza
"O natural que não vejo."


Onde acharei lugar tão apartado

Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.


Vencido está de amor Meu pensamento

O mais que pode ser Vencida a vida,
Sujeita a vos servir e Instituída,
Oferecendo tudo A vosso intento.
Contente deste bem, Louva o momento
Outra vez renovar Tão bem perdida;
A causa que me guia A tal ferida,
Ou hora em que se viu Seu perdimento.
Mil vezes desejando Está segura

Com essa pretensão Nesta empresa,
Tão estranha, tão doce, Honrosa e alta
Voltando só por vós Outra ventura,
Jurando não seguir Rara firmeza,
Sem ser no vosso amor Achado em falta.